Entrevista com Matheus Gonçalvez




1-      Você começa a escrever com um vislumbre do clima, atmosfera, ambiente, ou tudo acontece no "escrever" mesmo? 

R: Isso depende muito do momento em questão. Você vai me ver falando muito “depende” (risos). Não sei bem como responder isso, acho que é algo tão normal escrever pra mim que eu nem devo perceber se alguma coisa me motiva ali na hora. Acho que escrever é igual piscar, sabe... Você só faz.

2-       Há escritores que reescrevem sempre o mesmo livro? Temendo isto, você muda de gênero como troca de camisa? 



R: Não exatamente. Eu prefiro pensar que sou maleável, sabe. Consigo pular de um drama pra uma ficção sem problemas e sem levar a mesma história pra dentro do livro, mas porque seria errado você transformar um romance em um terror, por exemplo?

3-      Falemos de cama: adormecendo lhe vem uma ideia, deixa para pensar no dia seguinte ou levanta-se de um salto, alucinado? 

R: Olha, eu tenho um fuso-horário totalmente bagunçado (risos). Uma vez eu tive uma ideia que na hora achei bem bacana, e isso era três da manha. Eu levantei correndo, bati a canela na cama, peguei uma caneta e fui para o banheiro escrever a ideia no papel higiênico, então eu sou um pouco eufórico sim (risos). No dia seguinte vi que a ideia era uma bosta, mas fazer o que (risos).

4-       Seus julgamentos de valor são influenciados pelo calor da hora ou você mantém um distanciamento crítico? 

R: Eu sou muito impulsivo, então sou muito influenciado pelo calor do momento. Posso até tentar disfarçar (e eu disfarço bem), mas eu não consigo esconder muito, sabe...

5-      Sentimentos negativos como ódio, ciúme, inveja, vingança são motores bem regulados para a criação de uma obra? 

R: Isso depende do quanto você está bebendo, e o quê está bebendo (risos).

6-      O que faz quando sente que uma personagem lhe escapa? 

R: Fico olhando para o teto daqui de casa até lembrar, sério. Isso me ajuda muito.

7-      Quando percebe, porém, que a personagem está fraca, que as ideias estão murchas, você recomeça ou adota a ironia em relação a elas? 

R: Um pouco dos dois. Eu tento molda-la com a situação do momento, torna-la mais dinâmica, mas se não funciona, é só deletando mesmo.

8-      Cercado de baixo-astral por todos os lados, insiste em escrever porque...? 

R: Imagine que você está no meio do oceano. Nada no norte, nem sul, nem leste e nem oeste. Só um horizonte vazio. O seu barquinho está totalmente parado e não há um vento sequer. Tudo quieto. Se você pudesse bater a mão na água e criar uma distração agradável, você não o faria? Libertar a mente é o jeito mais gostoso de escapar da realidade.

9-      A técnica é tudo, nada, meio caminho andado? Aliás com quem aprendeu? 

R: Uma vez eu e meu irmão estávamos conversando, e ele disse algo muito interessante. Ele disse: ‘Há pessoas que nasceram com o dom, e outras que nasceram com a capacidade, mas não faz mal aprender fora da caixa também.’  A técnica só se mostra válida se você souber como aplica-la. E sobre a outra pergunta, não sei bem se realmente aprendi com alguém. Acho que por ler desde pequeno peguei gosto pela coisa.

10- Escrever é só inspiração? 

R: Isso depende. Um carro é só um motor?

11- Quando atacado pela preguiça, como você consegue combatê-la? 

R: Dormindo. Muito (risos).

12- Quando inicia um texto sabe antecipadamente seu conteúdo? 

R: Muitas vezes vou só escrevendo o que vem na mente. Depois vou revisando e vendo o que deixo e o que não deixo, e o que fazer com o que ficou.

13-  Tem algum escritor em que se espelha? 

R: Já tive alguns, mas acho que Poe ainda tem seu pedestal lá em cima.

14- Um escritor está sempre absolutamente consciente do que faz? 

R: Nunca. Ainda mais se você se apegar a um de seus personagens. Escrever é som, e sendo som as vibrações mudam a todo o tempo. Quando você começa a escrever algo, é bom saber desde o inicio que o que acontecerá está além do que você pode ver.

15- Qual foi o seu primeiro e decisivo ato literário? 

R: Acho que meu primeiro ato literário foi escrever uma “fanfic” pra minha ex, que se passava no mundo do Percy Jackson. Que saudades daquela história. Eu devia ter imprimido (risos)

16- Quando começou a escrever, já fazia planos de seguir carreira? 

R: Não. Nunca pensei firmemente em ser escritor. Sempre quis ser jornalista e estou até fazendo a faculdade, mas escrever sempre foi um sonho. Acho que ser escritor e estar aqui agora é uma puta duma extensão desse sonho. Desculpa o palavrão.

17-  Em caso de dúvida, impasse, descrença, você se aconselha com quem? (amigos, editor, leitor beta, etc) 

R: Com meu irmão na maioria das vezes. Quando ele não está por perto, o que é difícil, eu costumo falar sozinho. Ou ouvir musicas. Musicas depressivas ajudam bastante.

18- Música de fundo e café são indispensáveis? 

R: Eu não consigo escrever com música de fundo. Cara, eu odeio escrever com música de fundo. Nada contra, mas eu não consigo pensar. Ainda mais se a música é boa. E café é bom sim, muito bom, mas particularmente eu prefiro chá ou água. Ou uísque. Uísque também ajuda bastante.

19- Afinal qual o prazer do texto? 

R: É uma sensação gratificante. Não sei descrever. É como ver o mar pela primeira vez a cada frase boa que você coloca na história.

20- Para você como é escrever?

R: É estressante. Me faz ficar pensativo e criar uma barreira que ninguém consegue atravessar. Me deixa bravo quando surge um bloqueio criativo. Mas é uma das melhores coisas do mundo. Como eu disse, é como ver o mar pela primeira vez.

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